Pesquisadora da UENF, em Campos, ganha prêmio ao denunciar situação pós-Covid-19 nas favelas

Montagem feita da fachada da Uenf com a foto da jornalista #PraCegoVer

A jornalista Réia Sílvia Gonçalves Pereira, pós-doutoranda em Sociologia Política da UENF, em Campos, venceu a etapa estadual do Prêmio do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) de Ciência, Tecnologia e Inovação, na categoria Profissional de Comunicação, no Espírito Santo. Réia denunciou os impactos socioeconômicos decorrentes da pandemia, nas comunidades mais pobres, que têm sido avassaladores, sendo as comunidades a moradia de a grande maioria das vítimas da Covid-19.

Réia cita dados do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, grupo da PUC-Rio, segundo os quais há uma relação direta entre escolaridade e letalidade. “Pessoas sem escolaridade têm três vezes mais chances de morrer (71,3%) quando comparadas às pessoas com nível superior (22,5%). Quando são cruzados os dados entre escolaridade e etnia, a desigualdade dá um salto: pretos e pardos sem escolaridade tiveram 80,35% de incidência de morte, contra 19,65% dos brancos com nível superior”, diz.

Jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Réia tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes e doutorado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O pós-doutorado na UENF foi iniciado no mês de agosto deste ano. Ela conta que pesquisa as periferias e território de favelas desde o mestrado, iniciado em 2012. No doutorado, ela pesquisou as favelas que rodeiam a UENF e o Rio Paraíba do Sul, como a Tira-Gosto.

Ela diz que escreveu os artigos como forma de extravasar toda a angústia que estava sentindo ao ver tantas mulheres da periferia sofrendo sequelas graves da doença, sendo impedidas não só de trabalhar, como de ter uma vida funcional e plena. Uma vez que a pandemia não é democrática, ou seja, não atinge de forma igual todas as pessoas em todos os contextos sociais, segundo Réia, as políticas públicas também deveriam ser específicas, diversificadas para cada segmento. “Escrever sobre isso foi uma forma de mostrar como a pandemia estava atingindo de forma muito pesada, muito cruel, as populações das favelas, principalmente as mulheres negras, que estão na parte mais vulnerável de toda essa tragédia que é a pandemia de Covid-19 no Brasil”, afirma.

Segundo a pesquisadora, o jornalismo é importante por ampliar o debate sobre questões que estão acontecendo na sociedade. “Fiz alguns textos completamente angustiada, revoltada sobre como a pandemia estava sendo vivenciada nos territórios de favela nos quais eu pesquisava e tinha contatos”, diz. “Além disso, também quis apresentar discussões teóricas da antropologia e da sociologia urbanas para um público além da Academia, com o objetivo de tentar trazer um debate mais amplo sobre essas questões”.

Dentre os casos relatados, está o de uma mulher de 41 anos de uma favela de Campos dos Goytacazes, que ficou internada durante 14 dias no Hospital São José, sofrendo dois acidentes vasculares cerebrais por conta da Covid-19. Ela conseguiu deixar o hospital, mas até hoje não pôde retomar a mesma vida de antes.

“Ao deixar o hospital, Maria (nome fictício), uma diarista, evangélica, negra, moradora de uma favela de Campos dos Goytacazes e que enfrentou a devastação da Covid-19 em sua forma mais grave, voltaria para a casa, mas sua vida não seria mais a mesma. Como sequelas, enfrenta hoje a dificuldade de locomoção, as dores de cabeça — que qualifica como “desesperadoras” —, a sensação constante de exaustão, a dificuldade da fala e a suspeita de trombose. Para sua recuperação, conta com as orações e a ajuda dos amigos e vizinhos para a compra de medicações. Os tratamentos necessários de fisioterapia e de fonoaudiologia são inacessíveis para a diarista, que, impossibilitada de trabalhar, vive do auxílio emergencial, com o qual sustenta os seis filhos e o neto de oito meses na pequena casa”, conta Réia no artigo “Sequelas da Covid-19 devastam a saúde das mulheres na periferia”, publicado em 05/10/2020 no periódico “Solos — Narrativas Independentes”.

A opinião da pesquisadora sobre o atual governo brasileiro é a “pior possível”. Ela ressalta que, segundo pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP, o presidente da República agiu deliberadamente para agravar a pandemia, apostando na chamada imunidade coletiva, “o que é antiético e cruel”. “Sacrificou a vida dos brasileiros, principalmente os brasileiros negros, pobres e indígenas. Espero que a História seja implacável com esse homem e que possa responder por essa postura assassina. Para que nunca mais tenhamos que repetir essa política insana, má e, sobretudo, eugenista”, conclui.

As etapas estaduais do prêmio Confap foram realizadas pelas 26 Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs). O resultado nacional deve ser divulgado até o dia 25 de novembro de 2021, e a cerimônia de premiação está prevista para 1º de dezembro.

Redação Administrator
O Milênio

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