Coluna Mundo de Leituras: os subúrbios cariocas na obra de Coelho Neto

Coelho Neto seria outro a dar destaque aos arrabaldes cariocas em suas obras. Em A Conquista, a história se passa no auge da campanha abolicionista no Rio de Janeiro, ou seja, na segunda metade da década de 1880. Tendo como tema a vida da geração de escritores de sua geração naquele período, Coelho Neto realiza uma detalhada reconstituição de vários pontos da cidade do Rio. Importante anotar que o texto é ficcional apenas na aparência. O pano de fundo são situações concretas vividas pelos literatos, daí que os personagens mencionados na história tenham realmente existido. Ruy Vaz, por exemplo, era o pseudônimo de Aluísio Azevedo. Por isso se dedica a descrever aspectos do cotidiano vivenciados por aqueles em localidades como o Largo do Rocio e a Candelária. E vai mais além: o autor dá um grande salto na geografia carioca, alcançando Cascadura.

Mais que a distância percorrida pelas lentes de Coelho Neto, o mais notável é que ao destacar Cascadura, ele não se refira ao lugar como “arrabalde” e sim como “subúrbio”: Ruy Vaz, instalado definitivamente no palacete do visconde, engordava e tinha quase concluído o seu romance. Um incidente, porém, alvoroçou o estudante: o Alfredo, sempre taciturno, descobriu, uma manhã, na fronha alva do travesseiro, uma mancha de sangue e, como houvesse na família vários casos de tuberculose, ficou alarmado decidindo, desde logo, mudar-se para o campo onde houvesse ar puro e árvores e, com precipitação, não querendo dar tempo à moléstia, meteu-se num trem e foi correr os subúrbios achando uma casa modesta, de feição campestre, com muito terreno arborizado e uma cacimba, em Cascadura, numa larga estrada quase deserta que levava aos montes. A mudança foi feita num dia. Anselmo, à lembrança de viver em tão arredado sítio, hesitou antes de permitir que a sua canastra fosse despachada, mas Raul e Pedroso convenceram-no, falando-lhe do silêncio do campo, propício à meditação e ao estudo, bom ar saudável, da água excelente, dos saborosos frutos e Anselmo deixou-se levar, não prometendo demorar-se porque tencionava arranjar um lugar na imprensa que, ao menos, lhe desse para casa e comida. A casa era realmente pitoresca. Toda branca na verdura de um pomar e única na estrada areenta onde andavam soltos carneiros, cabras e grandes cevados grunhidores. Nas dimensões era um cacifro. Raul reclamou contra as portas estreitas.

Sempre prosperando em banhas, receava que, uma manhã, acordando, fosse obrigado a demolir a parede do quarto abrindo brecha para passar. Comiam em um hotelzinho, onde a gente da Estrada de Ferro costumava fazer os seus regabofes. De manhã, saindo em grupo, iam a um quiosque para o café. À noite dirigiam-se à estação para conversar e viam chegar e partir os trens e, quando os expressos silvavam, ao longe, paravam agarrados às colunas, com os olhos além, até que, na grande sombra, luzia o olho imenso da locomotiva, e vinha crescendo, crescendo, ouvia-se o rumor e o chiado, e rápido, repentino, o comboio passava levantando um grande vento. Mal se avistavam vultos brancos e lá ia ele curveteando, era uma luzinha que fugia como um vaga-lume e desaparecia na sombra. Logo, porém, outro comboio chegava lentamente, parando junto à estação, à espera de passageiros e outro vinha da cidade, bufando. Saía gente, a locomotiva, desengatada, parda veloz para a manobra no virador e os empregados iam examinar os carros, batendo-lhes nos eixos. Na plataforma iluminada reuniam-se rapazes, moças passeavam, e uma velha negra, aleijada, cochilava a um canto diante de uma bandeja, apregoando, de instante a instante, com uma voz triste, cocadinhas e balas. Anselmo achava aquilo hediondo. A vida insípida e monótona enchia-o de tédio e desalentava-o. Da manhã à noite era o mesmo, invariável espetáculo da natureza campestre, a mesma vida de rusticidade. Se chegava à janela, os olhos encontravam apenas a estrada larga e deserta, branca, escaldando ao sol.

De quando em quando, um homem que descia da sua roça, na vertente dos morros, sozinho, cantando ou com a bestinha lenta carregada, ou negras que tinham ido às compras e tornavam aos seus casebres com embrulhos, o cachimbo nos beiços, descalças, levantando uma poeira fina e dourada. Nota-se que o teor da descrição do “subúrbio” da parte de Coelho Neto muda significativamente. Não apenas que o subúrbio aqui destacado é bem mais longínquo que os “arrabaldes”, mas porque os tipos sociais e as características da ocupação são distintos. Não à toa, um dos primeiros termos assinalados pelo autor para descrever esse subúrbio é a existência de uma “casa modesta”. Algo quase inexistente nas descrições dos “aristocráticos” e “nobres” arrabaldes como eram retratados em obras anteriores, como a de José de Alencar e Machado de Assis.

Fonte: NETO, Coelho. A Conquista (1899). Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bi000137.pdf.

Leonardo Santos
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O Milênio

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