Coluna Mundo de Leituras: os subúrbios cariocas na literatura do início do Século XX

Subúrbio carioca no Século XX - Foto: Divulgação

O subúrbio a partir da década de 1910, assim como o arrabalde entre as décadas de 1840 e 1890, segue sendo marcado por caracteres rurais ou agrícolas. Mas diferentes deste, ele tem muito pouco ou quase nada de aristocrático. Os subúrbios que então passam a ser destacados pela opinião pública carioca são bem mais pobres, modestos, por vezes insalubre e bastante perigosos. Em razão disso, a valoração sobre o espaço se torna francamente negativa. Mais do que isso: subúrbio não denota apenas um espaço geográfico, mas quase que um modo de ser. Ser suburbano não designa apenas quem mora num subúrbio, mas uma maneira de estar no mundo, uma maneira de pensar e se relacionar.

Essa leitura sobre os subúrbios será uma das marcas da produção de vários literatos que exploram a paisagem carioca como cenário das suas histórias. O subúrbio será tematizado a partir de então pelo prisma do abandono, da marginalização e da carência. Subúrbio passa a ser sinônimo de região problemática. Uma leitura marcadamente depreciativa que se consolidaria nas primeiras décadas do século XX. Mas o enfoque não será linear: alguns autores se moverão em suas análises pendendo ora para a ratificação de preconceitos, ora para uma a formulação de certa crítica (pontuada, às vezes, por ironia). Compreensível, já que se trata de um conceito e um território – os subúrbios – em constante processo de construção e mudança. Além disso, o próprio sentido desse processo se encontra ele em disputa, daí tanta divergência e tensão entre os literatos (incluindo-se aqui os jornalistas).

Assim como nos escritos anteriores, as impressões e visões sobre os subúrbios mesclavam relato ficcional e registro jornalístico. Lima Barreto é um bom exemplo. Em seu Diário Íntimo, numa anotação de 1905, aqui lemos a sua ácida crítica sobre elementos da vida urbana dos subúrbios:

Eram vulgares no tempo em que morei nos subúrbios os clubes dramáticos. Em Cascadura havia quatro; no Riachuelo, um; no Méier, três; em Todos os Santos, um. Tinham títulos singulares. Um era, Cassino do Méier; outro, Clube Dramático Esperança. Em geral, eram sórdidos, baixos, um simples barracão coberto com telhas de zinco, e um jirau que era o palco. As mulheres se vestiam quase à vista dos homens. Mensalmente davam récitas. As amadoras, além de lhes faltar beleza, porte, gramática, não tinham voz, graça e jeito. Os rapazes ainda piores. Nos papéis dramáticos ou trágicos, presos da ênfase, tornavam-se ridículos. (BARRETO, Lima. Diário íntimo – 1905).

Visão desqualificadora que seria anos depois compartilhada por João do Rio em Dentro da Noite, publicada em 1911. Subúrbios e vícios são colocados no mesmo plano:

— É claro. Pobre amigo! Então, sofreste muito? Conta lá. Estás pálido, suando apesar da temperatura fria, e com um olhar tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que choraste. Conta lá. Nunca pensei encontrar o Rodolfo Queiroz, o mais elegante artista desta terra, nem trem de subúrbio, às onze de uma noite de temporal. É curioso. Ocultas os pesares nas matas suburbanas? Estás a fazer passeios de vício perigoso? (RIO, João do. Dentro da Noite – 1910).

Numa crônica de 1914 publicada no Correio da Noite, Lima Barreto tocaria no problema do policiamento. Mas se lido com atenção, o autor não enfoca apenas o problema da falta de policiamento do subúrbio, mas também a leitura tradicional da imprensa da cidade sobre a questão. Lima, como se lê abaixo, não nega que seja crônica a falta de policiamento na região, mas parece contestar a ideia de isso torna os subúrbios um lugar tomado pelo crime e pelos bandidos – como costumeiramente faz pensar a imprensa:

Noticiam os jornais que um delegado inspecionando, durante uma noite destas, algumas delegacias suburbanas, encontrou-as às moscas, comissários a dormir e soldados a sonhar. Dizem mesmo que o delegado-inspector surripiou objetos para pôr mais à mostra o descaso dos seus subordinados. Os jornais, com aquele seu louvável bom senso de sempre, aproveitaram a oportunidade para reforçar as suas reclamações contra a falta de policiamento nos subúrbios. Leio sempre essas reclamações e pasmo. Moro nos subúrbios há muitos anos e tenho o hábito de ir para a casa alta noite. Uma vez ou outra encontro um vigilante noturno, um policial e muito poucas vezes é-me dado ler notícias de crimes nas ruas que atravesso.

A impressão que tenho é de que a vida e a propriedade daquelas paragens estão entregues aos bons sentimentos dos outros e que os pequenos furtos de galinhas e coradouros não exigem um aparelho custoso de patrulhas e apitos. Aquilo lá vai muito bem, todos se entendem livremente e o Estado não precisa intervir corretivamente para fazer respeitar a propriedade alheia. Penso mesmo que, se as coisas não se passassem assim, os vigilantes, obrigados a mostrar serviço, procurariam meios e modos de efetuar detenções e os notívagos, como eu, ou os pobres-diabos que lá procuram dormida, seriam incomodados, com pouco proveito para a lei e para o Estado. Os policiais suburbanos têm toda a razão. Devem continuar a dormir. Eles, aos poucos, graças ao calejamento do ofício, se convenceram de que a polícia é inútil. Ainda bem. (BARRETO, Lima. “A polícia suburbana”, In: Correio da Noite, Rio de Janeiro, 28-12-1914).

No ano seguinte, Lima Barreto voltaria ao tema dos subúrbios. Mas aqui a sua leitura sobre eles está em sintonia com o que deles se fala nos jornais da área central do Rio. Os subúrbios como território da pobreza e da tristeza é retratado aqui em “Manel Capineiro”:

Quem conhece a Estrada Real de Santa Cruz? Pouca gente do Rio de Janeiro. Nós todos vivemos tão presos à avenida, tão adstritos à Rua do Ouvidor, que pouco ou nada sabemos desse nosso vasto Rio, a não ser as coisas clássicas da Tijuca, da Gávea e do Corcovado. Um nome tão sincero, tão altissonante, batiza, entretanto, uma pobre azinhaga, aqui mais larga, ali mais estreita, povoada, a espaços, de pobres casas de gente pobre, às vezes, uma chácara mais assim ali. mas tendo ela em todo o seu trajeto até Cascadura e mesmo além, um forte aspecto de tristeza, de pobreza e mesmo de miséria. Falta-lhe um debrum de verdura, de árvores, de jardins. O carvoeiro e o lenhador de há muito tiraram os restos de matas que deviam bordá-la; e, hoje, é com alegria que se vê, de onde em onde, algumas mangueiras majestosas a quebrar a monotonia, a esterilidade decorativa de imensos capinzais sem limites. Essa estrada real, estrada de rei, é atualmente uma estrada de pobres; e as velhas casas de fazenda, ao alto das meias-laranjas, não escaparam ao retalho para casas de cômodos. Eu a vejo todo dia de manhã, ao sair de casa e é minha admiração apreciar a intensidade de sua vida, a prestança do carvoeiro, em servir a minha vasta cidade. São carvoeiros com as suas carroças pejadas que passam; são os carros de bois cheios de capim que vão vencendo os atoleiros e os “caldeirões”, as tropas e essa espécie de vagabundos rurais que fogem à rua urbana com horror. Vejo-a no Capão do Bispo, na sua desolação e no seu trabalho; mas vejo também dali os Órgãos azuis, dos quais toda a hora se espera que ergam aos céus um longo e acendrado hino de louvor e de glória. (BARRETO, Lima. “Manel Capineiro”, In: Era Nova, Rio, 21-8-1915).

Em 1920, Lima denuncia em “O Cedro de Teresópolis” o esfacelamento dos aspectos rurais da região dos subúrbios. Mas de uma maneira curiosa: os vestígios típicos de uma vida agrícola estavam desaparecendo em paralelo ao deslocamento da antiga aristocracia dos subúrbios (aquela dos arrabaldes destacada pelos literatos da segunda metade do século XIX). Suas habitações iam pouco a pouco sendo abandonados, e com elas as plantações de frutas e verduras. Em seu lugar, eram erigidos habitações mais modestas, urbanas e áridas.

“Excessivamente urbana, a nossa gente abastada não povoa os arredores do Rio de Janeiro de vivendas de campo com pomares, jardins, que os figurem graciosos como a linda paisagem da maioria deles está pedindo. Os nossos arrabaldes e subúrbios são uma desolação. As casas de gente abastada têm, quando muito, um jardinzito liliputiano de polegada e meia; e as da gente pobre não têm coisa alguma. Antigamente, pelas vistas que ainda se encontram, parece que não era assim. Os ricos gostavam de possuir vastas chácaras, povoadas de laranjeiras, de mangueiras soberbas, de jaqueiras, dessa esquisita fruta-pão que não vejo mais e não sei há quantos anos não a como assada e untada de manteiga. Não eram só essas árvores que a enchiam, mas muitas outras de frutas adorno, como as palmeiras soberbas, tudo isso envolvido por bambuais sombrios e sussurrantes à brisa. Onde estão os jasmineiros das cercas? Onde estão aqueles extensos tapumes de maricás que se tornam de algodão que mais é neve, em pleno estio? Os subúrbios e arredores do Rio guardam dessas belas coisas roceiras, destroços como recordações. A rua Barão do Bom Retiro que vem do Engenho Novo à Vila Isabel dá a quem por ela passa uma amostra disso. São restos de bambuais, de jasmineiros que se enlaçavam pelas cercas em fora; são mangueiras isoladas, tristonhas, saudosas das companheiras de alameda que morreram ou foram mortas. Não se diga que tudo isso desapareceu para dar lugar a habitações; não, não é verdade. Há trechos e trechos grandes de terras abandonadas, onde os nossos olhos contemplam esses vestígios das velhas chácaras da gente importante de antanho que tinha esse amor fidalgo pela casa e que deve ser amor e religião para todos. Que os pobres não possam exercer esse culto; que os médios não o possam também, vá lá! e compreende-se; mas os ricos? Qual o motivo? Eles não amam a natureza; não têm, por lhes faltar irremediavelmente o gosto por ela, a iniciativa para escolher belos sítios, onde erguerem as suas custosas residências, e eles não faltam no Rio. Atulham-se em dois ou três arrabaldes que já foram lindos, não pelas edificações, e não só pelas suas disposições naturais, mas também, e muito, pelas grandes chácaras que neles havia. Botafogo está neste caso. Laranjeiras, Tijuca e Gávea também. Aos famosos melhoramentos que têm sido levados a cabo nestes últimos anos, com raras exceções, tem presidido o maior contra-senso. Os areais de Copacabana, Leme, Vidigal, etc., é que têm merecido os carinhos dos reformadores apressados”. (BARRETO, Lima. “O Cedro de Teresópolis”, In: Bagatelas), 27-2-1920.

Esse aspecto é rapidamente retratado por Lima Barreto em “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, quando descreve a residência do personagem que dá nome à obra, localizada em Rio Comprido: “O jardim, de que ainda restavam alguns gramados amarelecidos, servia de curadouro. Da chácara toda, só ficavam as altas árvores, testemunhas da grandeza passada e que davam, sem fadiga nem simpatia, sombra às lavadeiras, cocheiros e criados, como antes faziam aos ricaços que ali tinham habitado”. (BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 175).

Em crônica do início de 1920, o tema do passado aristocrático dos subúrbios cariocas voltava a figurar nos escritos de Lima Barreto. Não á toa o autor acaba ressuscitando o termo “arrabaldes”, demonstrando o quanto tal termo estava intimamente relacionado ao perfil que a região tinha quando era ocupada preponderantemente pela “gente importante de antanho”:

Os nossos arrabaldes e subúrbios são uma desolação. As casas de gente abastada têm, quando muito, um jardinzito liliputiano de polegada e meia; e as de gente pobre não têm coisa alguma. Antigamente, pelas vistas que ainda se encontram, parece que não era assim. Os ricos gostavam de possuir vastas chácaras, povoadas de laranjeiras, de mangueiras soberbas, de jaqueiras, dessa esquisita fruta-pão que não vejo e não sei há quantos anos não a como assada e untada de manteiga. Onde estão os jasmineiros das cercas? Onde estão aqueles extensos tapumes de maricas que se tornam de algodão que mais é neve, em pleno estio? Os subúrbios e arredores do Rio guardam dessas belas coisas roceiras, destroços como recordações. […] Não se diga que tudo isso desapareceu para dar lugar a habitações; não, não é verdade. Há trechos e trechos grandes de terras abandonadas, onde os nossos olhos contemplam esses vestígios das velhas chácaras da gente importante de antanho que tinha esse amor fidalgo pela ‘casa’ e que deve ser amor e religião para todos. (BARRETO, Lima. Toda crônica. RESENDE, Beatriz e VALENÇA, Rachel. Rio de Janeiro: Agir, 2004. p. 129).

Lima voltaria a apontar a ideia que de os subúrbios ainda conservavam hábitos típicos do meio rural em outras oportunidades. Contudo, o contexto em que eles são apontados – anos 10 e 20 – é marcado pelo avanço da expansão e consolidação de estruturas urbanas nos subúrbios cariocas. A vida rural aqui mencionada tem mais o caráter de vestígio de um passado em vias de desaparecer. Essa noção dá o tom de outra crónica, “15 de Novembro”, onde se vê ali a percepção de que um simples hábito como a leitura de jornais na “venda” é assinalado como um “gosto antigo e roceiro”.[1]

Além de vestígio, o rural que ainda sobrevive nos subúrbios vai sendo associado à pobreza. Os hábitos e emblemas rurais agora simbolizam a ocupação dos subúrbios por grupos sociais bem distintos dos ricos e aristocráticos grupos que tornavam “aprazível” – na visão da elite intelectual carioca – os antigos arrabaldes.

Em “Os percalços do budismo”, ressurge não apenas a noção de hábitos rurais deslocados, mas fundamentalmente a ideia de tais hábitos denotam o estágio de crescente empobrecimento do território:

“Pouco acima do Passeio Público, encontrei-me com o meu antigo colega Epimênides da Rocha, a quem de lá muito não via. – Onde tens andado? – No hospício. – Como? Não tens ar de louco absolutamente -como foi então? – A polícia. Não sabes que a nossa polícia é paternal e ortodoxa em matéria de religião. – Que tem uma coisa com a outra? – Eu te conto. Logo depois de me aposentar, eu me retirei com os meus livros e papéis, para um subúrbio longínquo. Aluguei uma casa, em cujo quintal tinha uma horta e galinheiro tratados por mim e pelo meu fiel Manuel Joaquim, um velho português que não ficou rico. Nos lazeres das minhas leituras, trabalhava nos canteiros e curava a bouba dos meus pintos. Fui ficando afeiçoado na redondeza e conversava com todos que se chegavam a mim”. (BARRETO, Lima. “Os percalços do budismo”, In: Marginália, s.d).

Barreto esteja exposta mesmo em “Os enterros de Inhaúma”. O autor procura sublinhar com certo lirismo um passado rural que vai sendo rapidamente engolido pela expansão de melhoramentos urbanos. Melhoramentos estes também questionados, por sua precariedade e por estar inseridos num contexto de franca pauperização: 

A pobreza da maioria dos habitantes dos subúrbios ainda mantém neles esse costume rural de levar a pé, carregados a braços, os mortos queridos. É um sacrifício que redunda num penhor de amizade em uma homenagem das mais sinceras e piedosas que um vivo pode prestar a um morto. Vejo-os passar e calculo que os condutores daquele viajante para tão longínquas paragens, já andaram alguns quilômetros e vão carregar o amigo morto, ainda durante cerca de uma légua. Em geral assisto a passagem desses cortejos fúnebres na rua José Bonifácio canto da Estrada Real. Pela manhã gosto de ler os jornais num botequim que há por lá. Vejo os órgãos, quando as manhãs estão límpidas, tintos com a sua tinta especial de um profundo azulferrete e vejo uma velha casa de fazenda que se ergue bem próximo, no alto de uma meia laranja, passam carros de bois, tropas de mulas com sacas de carvão – nas cangalhas, carros de bananas, pequenas manadas de bois, cujo campeiro cavalga atrás sempre com o pé direito embaralhado em panos. Em certos instantes, suspendo mais demoradamente a leitura do jornal, e espreguiço o olhar por sobre o macio tapete verde do capinzal intérmino que se estende na minha frente. Sonhos de vida roceira me vêm; suposições do que aquilo havia sido, ponho-me a fazer. Índios, canaviais, escravos, troncos, reis, rainhas, imperadores – tudo isso me acode à vista daquelas coisas mudas que em nada falam do passado. De repente, tilinta um elétrico, buzina um- automóvel chega um caminhão carregado de caixas de garrafas de cerveja; então, todo o bucolismo do local se desfaz, a emoção das priscas eras em que os coches de Dom João VI transitavam por ali, esvai-se e ponho-me a ouvir o retinir de ferro malhado, uma fábrica que se constrói bem perto. Vem porém o enterro de uma criança; e volto a sonhar. São moças que carregam o caixão minúsculo; mas assim mesmo, pesa. Percebo-o bem, no esforço que fazem. Vestem-se de branco e calçam sapatos de salto alto. Sopesando o esquife, pisando o mau calçamento da rua, é com dificuldade que cumprem a sua piedosa missão. E eu me lembro que ainda têm de andar tanto! Contudo, elas vão ficar livres de um suplício; é o do calçamento da rua do Senador José Bonifácio. É que vão entrar na Estrada Real; e, naquele trecho, a prefeitura só tem feito amontoar pedregulhos, mas tem deixado a vetusta via pública no estado de nudez virginal em que nasceu. Isto há anos que se verifica. Logo que as portadoras do defunto pisam o barro unido do velho trilho, adivinho que elas sentem um grande alívio dos pés à cabeça. As fisionomias denunciam. Atrás, seguem outras moças que as auxiliarão bem depressa, na sua tocante missão de levar um mortal à sua última morada neste mundo; e, logo após, graves cavalheiros de preto, com o chapéu na mão, carregando palmas de flores naturais, algumas com aspecto silvestre, e baratas e humildes coroas artificiais fecham o cortejo. Este calçamento da rua Senador José Bonifácio, que deve datar de uns cinqüenta anos é feito de pedacinhos de seixos mal ajustados e está cheio de depressões e elevações imprevistas. É mau para os defuntos; e até já fez um ressuscitar. Conto-lhes. O enterro era feito em coche puxado por muares. Vinha das bandas do Engenho Novo, e tudo corria bem. O carro mortuário ia na frente, ao trote igual das bestas. (BARRETO, Lima. “Os enterros de Inhaúma”, In: Feiras e mafuás, 26-8-1922).

Em O caçador doméstico, conto do início da década de 1920, Lima Barreto volta a investir na associação entre subúrbios e roça. Ou seja, o termo roça usado tinha como objetivo esclarecer que a noção de rural aqui estava articulado com a noção de atraso e pobreza:

Quando chegou, aí, por chefe de seção; lembrou-se que descendia de gente de lavoura e mudou-se para os subúrbios, onde teria alguma idéia da roça, onde nascera. Os restos de matas que há por aquelas paragens, deram-lhe lembranças saudosas da sua mocidade nas fazendas de seus tios. Lembrou-se que caçava; lembrou-se da sua matilha para caititus e pacas; e deu em criar cachorros que adestrava para a caça, como se tivesse de fazer alguma. No lugar em que morava, só havia uma espécie de caça rasteira: eram preás porém nos capinzais; mas, Simões, que era da nobre família dos Feitais de Pati e adjacências, não podia entregar-se a torneio tão vagabundo. Como havia de empregar a sua gloriosa matilha? À sua perversidade inata acudiu-lhe logo um alvitre: caçar os frangos e outros galináceos da vizinhança que, fortuitamente, lhe iam ter no quintal. (BARRETO, Lima. O caçador doméstico).

Em História e Sonhos de 1920, o subúrbio é retratado sob as lentes do personagem Zeca longamente como uma autêntica “roça”:

Zeca, vai à venda e traz dous tostões de sabão “regador”. Na venda, entre todo aquele pessoal tão especial e curioso das vendas suburbanas: carroceiros, verdureiros, carvoeiros, de passagens; habitués do parati, como os há na cidade de chope; conversadores da vizinhança, gente sem ter que fazer que não se sabe como vive, mas que vive honestamente; um ou outro degradado da sua condição anterior ou nascimento – entre toda essa gente, Zeca era mais imperioso e gritava: – Caixeiro, “mi” serve já. Dous tostões de sabão “regador”! Se o caixeiro estava atendendo à dona Aninha, mulher do servente dos telégrafos, Fortes, e não vinha atendê-lo logo, Zeca insistia, fingindo-se irritado: – “Mi despache”, caixeiro! Dous tostões de sabão “regador”. “Seu” Eduardo, o caixeiro, que era bom e habituado a suportar a insolência dos pequenos que vão às compras, fazia docemente: – Espere, menino. Você não vê que estou servindo, aqui, a dona Aninha! A mãe tinha vontade de pó-lo no colégio; ela sentia a necessidade disso todas as vezes que era obrigada a somar os róis. Não sabendo ler, escrever e contar, tinha que pedir a “seu” Frederico, aquele “branco” que fora colega de seu marido. Mas, pondo-o no colégio, quem havia de levar-lhe e trazer-lhe a roupa? Quem havia de fazer-lhe as compras? À tarde, Zeca descansava, brincava com as crianças do lugar um pouco; mas, ao anoitecer, já estava perto da mãe que remendava a roupa dos fregueses, à luz do lampião de querosene, cuja fumaça enegrecia o zinco do teto do barracão. (BARRETO, Lima. Histórias e Sonhos, 1920).

Mas diferente de outros autores que fazem ressaltar os aspectos rurais dos subúrbios para menosprezá-lo, Lima pondera que Zeca tinha um profundo carinho pelo lugar, muito mais do que pelo “centro da cidade”, com todos as vantagens que ela pudesse oferecer em termos de modernidade:

Se bem fosse com a mãe todos os meses receber a módica pensão que o pai deixara, na Caixa dos Guarda-Freios, o seu sonho não era viver no centro da cidade, nas suas ruas brilhantes, cheias de bondes, automóveis, carroças e gente. Zeca desprezava aquilo tudo. O seu sonho era o Engenho de Dentro e o seu cinema. Ter dinheiro, para ir sempre a ele, ver-lhe instantemente as “fitas” que os grandes cartazes anunciavam e o tímpano a soar continuamente insistia no convite de vê-las. Quando sua mãe permitia, aos domingos, com outra criança ajuizada da vizinhança, ia até à estação, até lá, defronte do fascinante cinema. Encostava-se, então, à grade da estrada de ferro e ficava a olhar, no alto, minutos a fio, aqueles grandes painéis, cheios de grandes figuras, deslumbrantes na sua cercadura de lâmpadas elétricas, como se tudo aquilo fosse uma promessa de felicidade. Como atingiria aquilo? O céu talvez não fosse mais belo… Em cima dos seus tamancos domingueiros, com o terno de casimira que a caridade do coronel Castro lhe dera, e a tesoura de sua mãe adaptara a seu
corpo, ele, fascinado, não pensava senão naquele cinema brilhante de luzes e apinhado de povo. Nem o apito dos trens o distraía e só a passagem dos bondes elétricos aborrecia-o um pouco, por lhe tirar a vista do divertimento. Não tinha inveja dos que entravam; o que ele queria era entrar também. (BARRETO, Lima. Histórias e Sonhos, 1920).

Leonardo Santos

Leonardo Santos Administrator
O Milênio

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