Coluna Mundo de Leituras: O (pobre) Subúrbio de Benjamim Costallat

Subúrbio carioca - Foto: Acervo Biblioteca Nacional

Na década de 1920, o tema do empobrecimento dos subúrbios é explorado por Benjamim Costallat em Mistérios do Rio. Pobreza que se expressava no tipo de ocupação efetivada por determinados grupos sociais e pela precariedade dos serviços urbanos da região. Tomando o caso de Ramos como exemplo, ele comenta:

Em ruas largas e mal iluminadas, Ramos dormia o seu sono exausto de subúrbio. O sono dos subúrbios é um sono pesado, é um sono triste.
Nas ruas muito largas, muito esburacadas e quase escuras de Ramos, aquelas simples casas caiadas, que não veem passar um automóvel, um bonde, um caminhão, têm o ar lúgubre das casas abandonadas.
A população é uma população exausta que faz duas viagens por dia, muitas vezes em pé, nos carros repletos da Leopoldina.
É uma gente que acorda já cansada, pensando nas duas viagens de trem, no calor, na poeira, no dia que recomeça, idêntico ao da véspera e que se repetirá na manhã seguinte. É a vida suburbana, triste e monótona. Igual, sempre igual, eternamente igual!… Algumas ruas, largas como avenidas, mas esburacadas pelas chuvas e quase sem luz, um cinema cheio de cartazes de fitas sensacionais do século passado, com um piano desafinado; uma farmácia que vende mais
ervas de curandeiros do que receitas de médicos; uma delegacia com um “prontidão” sonolento e magro… E eis tudo. Eis a vida noturna dos subúrbios. Os habitantes daquelas casas tristes e pobres vivem no Rio o dia todo nas suas ocupações. Só voltam ao subúrbio para dormir (p. 74-75).

Ainda podemos observar em Costallat que a pobreza dos subúrbios (Ramos, no caso) está ligada a permanência de aspectos rurais em sua geografia:

O silêncio era profundo. No barracão escuro, de janelas hermeticamente fechadas, só se via luz pelas frestas do teto, um teto de madeira, mal pregado. Ao redor do barracão um capinzal espesso. E ninguém – o deserto … Já deviam ser umas onze horas. Desde as dez que estávamos ali, atentos, em observação, correndo o risco de uma dentada de cobra, sem que nada de anormal se produzisse, sem que ninguém entrasse ou saísse do barracão sinistro, sem ouvir um ruído, um sinal, alguma cousa que nos dissesse que além daquela luz, fugindo pelo teto, existia alguém, uma alma, uma criatura, naquela casa estranha e isolada (p. 74).

Nesse tipo de argumentação encontram-se expressas as bases do discurso quase cotidianamente acionado por essa época com vistas a consolidar uma certa imagem sobre os subúrbios. Muito daquilo que é visto como estranho à cidade, é, no final das contas, visto como próprio, compatível, aceitável e mesmo característico dos subúrbios.
É curioso perceber como o processo de deslocamento de segmentos das camadas populares para o subúrbio parece sancionar um discurso que o toma como uma espécie de área que tivesse como principal função receber e abrigar tudo aquilo que era visto como negativo e impróprio de se estabelecer no centro da cidade. Assim sendo o
subúrbio era visto como sede “natural” de usos e aspectos materiais associados a alguns agrupamentos sociais: tipos de moradia, práticas de lazer, hábitos alimentares e religiosos etc. É claro, todos vistos a partir de uma perspectiva negativa, como antítese da cidade moderna (de matiz europeu) que vinha sendo edificada há alguns quilômetros dali. E é interessante observar que dentre os muitos elementos vistos como típicos do subúrbio vários façam referências a usos rurais.

Bibliografia:
COSTALLAT, Benjamim. Mistérios dos Rio. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultural, Turismo e Esportes, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1990.

Leonardo Santos
Leonardo Santos Administrator
O Milênio

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