Coluna Mundo de Leituras: o PCB de Campos no pós-1945

Cidade de Campos dos Goytacazes vista do alto #Pracegover

A reestruturação do Partido é iniciada em 1945 com a liderança do Dr. Custódio Siqueira e de diversos militantes “externos” enviados pelo Comitê Central à cidade como Edgar Leite e Adão Voloch. Um intenso trabalho de constituição de células em bairros e empresas toma curso. É nesse momento que os comunistas iniciam sua incursão pelo mundo das usinas para implantar tais células, casos de Queimados, Mineiros, Cupim e São José). Vários Comitês Democráticos Progressistas são fundados, o que contribui para a expansão da capilaridade do Partido junto a sociedade civil não-sindicalizada, como as donas de casa e os cidadãos mais engajados em causas de caráter mais “comunitário” ou de bairro.

O Partido volta a ter atuação contundente junto aos Sindicatos, em especial o da Leopoldina (ferroviários), Fábrica de Tecidos, Companhia de Luz, de Água etc. Adão Voloch, em nome do PCB, promove a articulação necessária para a criação da União Sindical de Campos. O trabalho parece ser tão promissor que Prestes decide fazer uma visita à cidade em setembro de 1945, indo à várias empresas, principalmente a algumas usinas (Cupim e Mineiros). E o crescimento dos comunistas se vê conformado nas eleições de fim deste ano: o PCB se constitui como a 3ª força política da cidade.

Mas a “lua-de-mel” com a democracia liberal tem vida curta. O crescimento do Partido (tinha uma grande bancada no Congresso, a maior bancada nos legislativos municipais do Rio de Janeiro e Santos e uma enorme bancada em São Paulo) passam a incomodar as “classes retrógradas”. A pressão contra o PCB a partir de 1946 é muito intenso e desleal. E será coroada pela cassação do registro do Partido pelo Tribunal Superior Eleitoral em maio de 1947. E os efeitos sobre os comunistas campistas seriam quase imediatos.

A repressão desencadeada pelo governo Dutra contra os comunistas é brutal. Ela foi meticulosamente preparada. A decisão do TSE de 7 de maio de 1947 (por 3 votos a 2) de suspender o registro do Partido – com a alegação de que ele era na verdade uma filial do regime comunista internacional – foi apenas a cereja do bolo. Meses antes Dutra já havia aberto suspendido as atividades da Juventude Comunista: num primeiro momento por apenas 6 meses; logo depois baixaria um decreto extinguindo-a. E no 1º de maio o mesmo simplesmente proibiria qualquer tipo de manifestações em praça pública. A medida tolhia o PCB de seu principal meio de expressão e pressão, exaustivamente praticado junto aos segmentos da sociedade civil (organizada ou não).

A repressão que se seguiu (prisões, empastelamentos, torturas, fechamento e destruição de sedes, demissões, cassação de direitos políticos). Uma “nova noite sombria se abate sobre o movimento sindical”. Assim como em todo o Brasil, os comunistas de Campos teriam suas células, sindicatos, ligas e comitês progressistas e demais associações fechadas. E criava-se, além de tudo isso, um outro impasse: como disputar as eleições municipais de setembro daquele mesmo ano? A saída seria buscar o abrigo de outras legendas. Em Campos, os candidatos do agora ilegal PCB buscaram o Partido Libertador. A campanha só se inicia faltando um mês para o pleito. Tendo os comunistas escolhido lançar o antigo militante Custódio Siqueira como candidato ao prefeito e para vereadores teríamos: Délio Lemos (comerciante), Barreto Gomes (ferroviário), Valduvino Loureiro (marceneiro), Olavo Marins (metalúrgico), Alberto Harmelli, (médico), Henrique Betancourt (funcionário público municipal), Adão Voloch (jornalista), Francisco Ramos (dentista) e José Jorge de Oliveira (Cia. de Energia).

Para reforças as candidaturas comunistas o Comitê Central reativa uma antiga prática na sua relação com o Comitê Municipal de Campos: envia numerosos quadros do “1º escalão” para o reforço da mobilização e engajamento dos membros locais. Com esse fim José Maria Crispim, Lincoln Oeste, o vereador pelo D.F. Agildo Barata e o deputado federal Pedro Pomar chegam à cidade para participar “da campanha eleitoral em diversos atos públicos (corpo a corpo, comícios relâmpagos nos bairros e portas de empresas, panfletagens, palestras, etc).

Faltando 4 dias para a eleição, quando mal havia iniciada o comício de encerramento de
sua campanha, o Dr. Custódio sofre um infarto fulminante e cai morto. O Partido decide
apoiar o também médico Manoel Ferreira Paes. Este acabaria eleito. O comunista Barreto
Gomes é o único eleito com 624 votos. O PL, isto é, o PCB ganharia apenas 2.108 votos de
um universo de 28.300 votos apurados, ficando em 5º lugar entre todos os partidos. Não era boa a situação dos comunistas, apesar da eleição de Gomes. Até porque, entre 19 eleitos, ele havia sido o 15º. Aliás, Barreto teria vida curta no Partido por conta de um desentendimento com a direção. Esta buscaria imprimir uma linha programática sectária, o que se chocava em parte com a própria característica pluralista do Partido em Campos. Este podia padecer de incontáveis problemas, mas o sectarismo não era um deles, como comprova a composição do Comitê Municipal em fins de 47. Seu primeiro-secretário era Luis Limonge e os demais membros eram: os tecelões Antônio Carlos, Ângelo Goiaba e Jaime Borges; o gráfico Renan Armond; a professora Geni Ferreira; o ferroviário Gualter Francisco dos Santos; os metalúrgicos Aguinaldo, Olavo Marins e Agassis Silva; os trabalhadores de usina Adão Voloch e Ernesto Silva; o trabalhador dos carris Luiz Peçanha; o marceneiro Valduvino Loureiro; o dentista Francisco Ramos e o funcionário público José Jorge.

Leonardo Santos Administrator
O Milênio

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