Coluna Mundo de Leituras: comunistas em Campos no início dos anos 1930

Dias depois da visita de Otavio Brandão, outros líderes pecebistas visitariam Campos, numa prova da importância estratégica da cidade, centro nervoso de uma micro-região que envolvia o norte e noroeste fluminenses, o sul do Espírito Santo e a zona da mata mineira. Depois de Octávio, ainda em março, chegaria João da Costa Pimenta, presidente da União dos Trabalhadores Gerais e da Federação dos Trabalhadores Gráficos do Rio de Janeiro. João era também redator d’A Plebe e presidente do Bloco Operário Camponês. Depois era a vez de Minervino de Oliveira, que chegaria em Campos no dia 18 de abril. A tarefa de consolidar uma rede de instituições e apoio ao PCB local prosseguia. Assim, Minervino junto com Duvitiliano Ramos, Timóteo Barbosa, Hilton Cantarino, Elísio, Constâncio Dulci e Onofre Caetano organizam a “Aliança dos Trabalhadores de Campos” e um Comitê pró CGT, “como uma seção do município, visando o V Congresso Operário Nacional”, programado para se reunir no dia 26 de abril daquele ano.

Nos meses seguintes a rede já parecia dar frutos concretos, mesmo que possivelmente irrisórios. Mas o objetivo do Partido em consolidar instâncias locais que fornecessem apoio (material ou não) para as causas mais “geraes” (entenda-se aquelas mais associadas aos centros de poder localizados na então ensolarada capital da República) começava a configurar. Com esse intuito “a Aliança dos Trabalhadores envia auxílio em dinheiro, obtido de festival realizado no Cine Capitólio, para os operários gráficos de São Paulo, que ficaram em greve durante três meses. A doação foi remetida através do intendente Minervino de Oliveira.

No final de 1929 seria a vez de Astrojildo Pereira. Também se dirigiria ao Cine Coliseu para proferir uma palestra, que “empolgou a todos os presentes, despertando-os para o ingresso e militância no Partido”, segundo Delso Gomes. Durante a sua estadia, Astrojildo ainda visitaria “a Fábrica de Tecidos, no bairro da Lapa, visitou a Usina do Queimado e a Oficina Carangola da Estrada de Ferro Leopoldina, sempre fazendo contado direto com os trabalhadores”. Ainda segundo Delso, como prova da comoção causada pela passagem de Astrojildo, em especial sua conferência no Coliseu, muita gente teria formalizado seu ingresso no Partido, como Duvitiliano Ramos, Constancio Dulci e Onofre Caetano.

Com o desmantelamento do Bloco Operário Camponês pela Direção Nacional do Partido em 1930, os comunistas campistas iriam se concentrar no fortalecimento do Centro Político Proletário. Além dele, na mesma época, é instalada o Socorro Vermelho, “com objetivo de praticar a solidariedade”, e que era uma seção municipal da entidade de âmbito internacional. Em Campos era secretariado por Roberto Melo. O Socorro era um importante braço político dos comunistas na área da saúde, extremamente estratégica, em vários sentidos, dado as inúmeras categorias profissionais envolvidas, os próprios pacientes e o simbolismo de um ofício cuja abnegação maior seria teoricamente salvar vidas.

Além dessas entidades, os comunistas desde então já instalavam as primeiras células (organismos de base). Uma das primeiras foi a do Turf Club, bairro tradicional da cidade. Seu organizador seria Onofre Caetano. Muita coisa se aprendia nessas células, desde elementos da doutrina comunista, como estratégias de propaganda e agitação e, até, elementos mais pitorescos como “fazer bandeirolas com suas aranhas bem esquematizadas para serem penduradas nos fios da rede elétrica, nas comemorações das datas históricas dos comunistas, como os aniversários de Stalin, de Prestes, da Revolução Russa, do 1º de maio, e outros”.

Além disso, os comunistas buscaram criar sindicatos. E em tal senda as batalhas com os anarquistas pela hegemonia do movimento operário já vinha de anos. Dessa forma surgiram os sindicatos dos Trabalhadores das usinas, dos Metalúrgicos, dos Ferroviários, dos Comerciários, dos Urbanitários, do Pessoal da construção civil, dos Tecelãos, dos Alfaiates, dos Padeiros e dos Gráficos, dos trabalhadores em Hotéis. Mas talvez o mais atuante fosse o Sindicato dos Estudantes. Ele reuniria figuras de proa do PCB campista, como Nina, Clóvis e Adão. Em suas memórias Delso Gomes sobre isso comenta:

Recém formado em medicina, Adão Pereira Nunes, franzino e sardento, surge no cenário político como um furacão. Era um dos poucos membros da Aliança Nacional Libertadora – ANL. Fazia discursos inflamados que tocavam o coração do povo, e sempre se colocava à frente dos movimentos grevistas reivindicatórios. A ascensão do Partido Comunista foi vertiginosa. Suas fileiras aumentam dia a dia e os nomes de Adão e Nina ultrapassam as fronteiras do nosso município (Gomes, 2000, p. 22)

Mas é preciso destacar que a busca pela formalização de sindicatos não é obra pura e exclusiva dos “vermelhos”. Como se verá em outras situações, todo um acúmulo de disputas, práticas, discursos e lutas que fermentam desde o início da década de XX vai de certa maneira contribuir para sedimentar algumas instituições na década de 1930 em diante. Os sindicatos são um exemplo parcial. Alguns já pipocavam em época anterior, como o Syndicato Agrícola, depois chamado de Sindicato Campista dos Usineiros. Este passaria a se chamar em 1934 Sindicato da Indústria e Refinação do Açúcar, representando os usineiros dos estados do Rio e do Espírito Santo, mas com sede em Campos. Os grandes proprietários de terra, mais ligados diretamente ao cultivo da cana criariam a Associação Fluminense dos Plantadores de Cana, que se notabilizaria pelo seu amplo departamento de “assistência social” e pela construção de ambulatório e de um enorme Hospital Central na cidade, até hoje em funcionamento.

Aqui se tratava de organizações de cunho patronal, tendo os sindicatos acima filiação com a veneranda e oligárquica Sociedade Nacional de Agricultura. Tais entidades desde os primeiros anos do século XX, em especial o Syndicato Agrícola, travariam um duro combate pela regulação dos preços do açúcar, propugnando energicamente pela baixa ou pela alta (de acordo com a conveniência) do “ouro branco”.

E havia também – importa frisar – outras formas de organização classista que buscavam exatamente driblar os impasses oferecidos pela diminuta legislação sindical. Caso da União dos Padeiros de Campos e o Clube da Lavoura Campista. Mais tarde, na década de 30, a cidade iria testemunhar o surgimento de associações de caráter mutualista, como as Uniões Beneficentes, reunindo empregados de algumas usinas, como a Cambahyba.

Fonte bibliográfica:

GOMES, Delso. História do Partido Comunista em Campos (memória de um Partido Revolucionário). Campos dos Goytacazes: Jornal Dois Estados Gráfica e Editora,
2000.

Leonardo Santos Administrator
O Milênio

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