Coluna Mundo de Leituras: comunistas e trabalhadores da Cana em Campos

É realmente expressivo o número de ocasiões em que os próprios militantes
comunistas reconhecem ter sido de extrema relevância o contato do ainda insipiente
quadro local do partido com os trabalhadores das lavouras canavieiras e das usinas a elas
ligadas. A reunião com vários deles foi a primeira iniciativa de Octávio Brandão quando lá
chegou, pela primeira vez, com o intuito de mobilizar o maior número possível de
campistas para construir uma base do partido na cidade. O plano de Brandão era divulgar
um manifesto sobre a mulher, o jovem e a Aliança Libertadora. E para tanto Octávio se
encontraria e discursaria para uma série de pessoas, das mais diferentes ocupações
urbanas. Mas outras categorias lhe suscitavam bastante interesse: os “camponeses” e os
“operários agrícolas”.

O comunista alagoano era uma das principais lideranças do partido, o posto de
redator do órgão oficial dos comunistas – A Classe Operária, já dizia tudo. E assim que
pisou em terra goytacá, este homem de “propensão irresistível para as causas geraes”
não pensou duas vezes: ocupou a maior parte do tempo na cidade palestrando nas usinas
de cana com alguns dos seus trabalhadores e visitando alguns sindicatos, como o dos
padeiros.

A importância dos jornais na estratégia de consolidação e estruturação do Partido
encontra-se bem expressa nesse outro trecho das memórias de Brandão:

“Distribuíram folhetos, manifestos e a Classe Operária, fizeram agitação e propaganda
contra o imperialismo. Explicaram o papel do PCB e o dos sindicatos. Tomaram nota de
endereços”.

“De volta ao Rio de Janeiro, mantive o fogo aceso. Enviei cartas e novos materiais de
propaganda. Esta obra foi continuada e desenvolvida pelos bons camaradas Duvitiliano
Ramos, operário gráfico, e Constâncio Dulci, agrônomo”.

A própria Juventude Comunista lideraria o movimento de fundação do Sindicato dos
Trabalhadores de Usinas de Açúcar, “que denunciava a penosa vida dos trabalhadores
que amargavam a existência no plantio da cana e na cristalização do açúcar.”

Astrojildo visitaria fábricas e oficinas, mas não deixaria de visitar a Usina do
Queimado. Mas passado esse primeiro impulso, os articuladores comunistas de Campos
tenderiam a se concentrar junto às categorias do meio urbano. Sintomático disso é o
grande crescimento de adesões ao Partido junto a operários da Fábrica de Tecidos, de
ferroviários, de eletricitários, da construção civil, de estudantes etc. O mesmo já não
ocorreria quanto aos trabalhadores de usinas. O afastamento da direção de Octávio
Brandão e Astrojildo Pereira só acentuaria tal tendência. A linha obreirista então
implantada privilegiava os setores do proletariado industrial e urbano.

Mas em Campos isso duraria por muito pouco tempo.

É nessa época que começam a estourar as primeiras greves. Algumas das mais
marcantes são as dos trabalhadores das oficinas da Leopoldina em Carangola e a dos
padeiros. As categorias urbanas cresciam e a influência comunista se expandia, para o temor da imprensa conservadora, de Campos e fora dele. Num sugestivo editorial
intitulado “A actividade communista e a repressão conservadora: enquanto é
tempo…”, o reacionário A Noite – de grande circulação em todo o estado – expressava
seu visceral anti-comunista num tom nada comedido. Ainda ao tempo de Brandão e
Minervino, via com bastante temor a propagação dos ideais comunistas no interior
fluminense, em especial na planície goytacá:

Daqui desbordam os communistas para o Estado do Rio, onde, sob a direção do
intendente Minervino de Oliveira, têm realisado comícios, começando de Nictheroy
para as cidades do interior, as de intensa vida agrícola como Campos, naturalmente
com o fim de interessarem os trabalhadores da terra no estabelecimento concreto de
seu credo repugnante. (A Noite, 5 de agosto de 1930, p. 1)

Não restava sombra de dúvida para o pasquim sobre os perigos da trama
bolchevique:

Como se vê, a actividade communista é um facto, com o qual já não é possível
contemporizar de modo nenhum, exigindo a segurança das instituições conservadoras que
os poderes publicos caiam sobre êlles com pulso e mão de ferro. Não nos venham dizer
que a repressão da lei não pôde deixar de se acommodar à relativa brandura com que são
tratados os criminosos vulgares. Nada disso.

Em face de trama tão sórdida dos “derrotistas subsidiados pelo ouro de Moscou”
era preciso agir. Sem delongas, o jornal argumentava:

Ninguém se illuda a tal prespeito, nem fique indifferente aos movimentos communistas,
dando de hombros sob a impressão de que elles nada poderão entre nós. Se não os
inutilisarmos desde já, dificuldades terriveis nos crearão elles de futuro. Dispondo, como
dispõem, portanto, de fortes elementos repressivos, os poderes públicos, estão à vontade
para varrer do Brasil a perigosa praga do bolchevismo. E mãos à obra, emquanto é tempo.

Essa era só uma das dificuldades que os comunistas enfrentavam na tentativa de
difundir sua doutrina e bandeiras junto aos segmentos populares da sociedade. Havia
ainda a forte repressão policial. Tudo isso tornava muito difícil o trabalho de seus
militantes. Octávio Brandão, na entrevista de 1977, fala de algumas estratégias para
driblar o cerco anti-comunista de todos os dias:

Conversávamos na hora do almoço, conversávamos outras vezes e fazíamos comícios:
trepar lá no gradil do Engenho de Dentro e aí explicar classe e luta de classes. Agora,
fizemos uma coisa bem pensada… Vamos a esses lugares, na hora do almoço,
conversar com os operários para saber as condições de vida e trabalho naquela
empresa e fazíamos um discurso que só servia para aquela empresa. Levantando os
problemas daquela empresa. Eram discursos assim. Desde as primeiras palavras,
conquistávamos a atenção da massa, porque era um discurso que só servia para
aquela empresa, não servia mais para nenhuma empresa.

Se no meio urbano eram enormes as dificuldades, o que dizer do interior, do
trabalho junto aos trabalhadores rurais: colonos, meeiros, posseiros, assalariados
agrícolas, operários de usinas, etc?

Ninguém melhor para ter noção desses obstáculos do que os próprios comunistas
campistas. Era “nas reuniões ‘nos fundos da Igreja Santo Antônio’”, que o grupo de
“Nina traçava planos para expansão de células comunistas para a fundação de novos
sindicatos e a cooptação de outros filiados.”

Mas em que pese as dificuldades acarretadas pela forte pressão repressiva, alguns
membros do PCB alegam que havia por parte do próprio partido um certo desinteresse
em relação aos segmentos de trabalhadores do campo. Octavio diz que uma das
principais falhas do partido nas primeiras décadas do partido foi não dar atenção aos
“camponeses”. Mesmo assim, cita algumas iniciativas dos comunistas nesse setor:

Houve o seguinte… Eu me esqueci; Laura é que sabia. Aí no estado do Rio, numa zona,
ela sempre ia bater lá – levava não sei quantas horas de viagem -, falar com aqueles
camponeses. E houve em Sertãozinho, Ribeirão Preto, naquela zona toda, um
camarada, Teotônio de Souza Lima. Uma maravilha. Era um fogueteiro, fabricava
foguetes. O homem era uma dedicação extraordinária. Ele leu, por acaso, o jornal A
Classe Operária, em 25, e aderiu ao partido. Então ele, fogueteiro, tinha um sindicato
em Sertãozinho, estado de São Paulo e organizou esta coisa extraordinária: marcha de
verdadeiros camponeses, colonos das fazendas de café, em direção à cidade de
Sertãozinho para fraternizar com os operários. Uma coisa extraordinária. A outra coisa
foi em Juiz de Fora. Reuni um grupo de operários e fomos aos arredores de Juiz de
Fora, uma zona de fazenda de café. Penetramos lá. Fizemos comícios dentro da
fazenda de café, e aqueles colonos assinaram um abaixo-assinado ao ministro da
Justiça, protestando contra o fechamento do nosso jornal A Classe Operária. Em 1925.
Mas essas tentativas tiveram a falha de não serem sistemáticas, metódicas,
planificadas. Apenas em Sertãozinho.

Sobre o trabalho em Campos, Brandão não deixaria de lembrar, apontando inclusive
para importantes peculiaridades da região:

“- Bem, Campos… Aí não são camponeses, são operários agrícolas das usinas.
Penetramos nas usinas, viu? Eu mesmo penetrei e levei os amigos, os companheiros de
Campos, José Marcílio e outros. Fomos lá dentro das usinas. Mas eles eram trabalhadores
urbanos, não fizeram trabalho no meio dos camponeses. Uma subestimação da
importância do camponês. De modo que foi um trabalho não sistemático, não metódico.

A semente plantada por Octávio e outros camaradas começou a dar frutos poucos
anos depois. Segundo Juliana Carneiro, “na movimentação pela fundação do sindicato
classista dos trabalhadores de usinas de açúcar, participa ativamente o advogado Valdir
Faria Rocha e o líder operário Antônio João Faria”. Além do dr. Valdir (de tendência
socialista) e de Antônio (da usina de Santo Antônio e um dos maiores quadros do PCB na
região), a luta pela criação do sindicato também contou com os esforços de Antonio
Cabral, funcionário da Usina de Tocos e com a intensa atuação dos jovens Adão e Nina.

Leonardo Santos Administrator
O Milênio

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