Coluna Mundo de Leituras: a presença do rural no centro da cidade na virada do século XIX

A busca dos vários significados de alguns vocábulos nos diversos dicionários de línguas podem se constituir em interessantes ferramentas de pesquisa de alguns processos históricos. Se bem manejada, elas nos oferecem, como toda e qualquer fonte, importantes indícios, pistas e sinais. Em última análise oferecem necessariamente, enquanto uma forma específica de determinação de um significado legítimo – e, portanto, um elemento que é expressão e que procura expressar um determinado estado das relações de força – uma leitura particular sobre os processos históricos que se visa compreender.

Quando nos dedicamos a buscar algumas palavras referentes aos temas do urbano e rural, passamos a entender um pouco mais a força que a oposição entre os dois termos tem no imaginário sociológico e historiográfico.

O significado que a língua francesa dá ao termo cidade é extremamente interessante. A descrição formulada busca exatamente realçar seu valor e sentido histórico, enquadrando a cidade enquanto um acontecimento. Apoiando-se, para tanto, numa espécie de mito de origem da cidade.

E outra grande peculiaridade está exatamente na definição final: a cidade é contraposta à família. Uma peculiaridade, pois a oposição não se estabelece em relação ao campo. Temos que na versão francesa a cidade é entendida mais explicitamente como um componente das relações políticas e não apenas uma determinada configuração do espaço geográfico, e tampouco um lócus de expressão de uma forma de cultura. A cidade é o campo da política? Mais do que isso. Na definição da cité enquanto ville, lemos que ela se constitui como tendo ela própria uma personalidade política. Tendo assim, portanto, direitos e deveres.

Urbano e rural são apresentados como se fossem mundos distintos, mas cuja existência só é reconhecida na medida em que eles se forjam a partir de uma relação de oposição mútua. A dimensão do sentido e do valor histórico de cada um deles tem como condição necessária essa relação de oposição. Não esquecendo que nessa oposição – que não é mais do que um confronto entre mundos distintos – um está claramente em desvantagem em relação ao outro, daí o predomínio da cidade sobre o campo, do urbano sobre o rural, pelo fato do primeiro encarnar tudo aquilo que é próprio de um universo ou cultura civilizada, ou conforme diria Norbert Elias, o caráter especial “do nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão do mundo”.

Por último, há que se destacar que a oposição se dá também em termos geográficos: o urbano além de ser diferente do rural tem um lugar, daí o sentido preciso das expressões “próprio da cidade” e “próprio do campo”.

Em tal tipo de enquadramento passa a ser inconcebível que elementos de um polo possam ser identificados ou associados ao outro, no sentido de que algumas de suas características possam ser encontradas tanto em um quanto no outro. Isso deporia contra esse tipo de oposição. Aqui não há espaço, literalmente, para ambiguidades ou conciliação dos termos. Por exemplo: os usos rurais têm um espaço próprio, assim como os usos urbanos têm o seu. Com fronteiras bem delimitadas, bem visíveis, com o estrito fim de mostrar quando acaba um e começa o outro. E na medida em que há uma mistura esse espaço não é totalmente urbano e nem totalmente rural, é definido como suburbano, pois um espaço urbano de condição inferior, pois não totalmente urbano (até porque ainda abriga vestígios rurais), mas em vias de se constituir enquanto tal, desde que tenha conseguido se livrar definitivamente de todo e qualquer traço ou herança camponesa.

No próximo texto veremos como a noção de rural mudou radicalmente a partir de meados do século XIX.

Leonardo Santos
Leonardo Santos Administrator
O Milênio

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